Capítulo I

Surrealismo
Escovei os dentes, cuspi na pia, enxaguei a boca, sequei as mãos e voltei pro meu quarto. Fechei a porta e sentei na cadeira, mas lembrei da luz do banheiro que se manteve acesa. Levantei, caminhei até a porta fazendo o chão de madeira ranger e girei a maçaneta, que fez com que a porta caísse e batesse na água lá no fundo. Do outro lado da soleira o oceano me recebeu, por todos os lados e sem vista para lugar algum, com um céu alaranjado magnífico.

Devo estar sonhando; meus sonhos são bem criativos, mas não sinto que durmo, sinto uma leve queimação no peito, como se meu coração estivesse esquentando, pensei, ao mesmo tempo que o assovio das janelas pronunciavam o som de “Sinta”.  Pena que não sei mais onde estou, se isso for a vida real será uma longa caminhada de volta pra casa. Queria que o peixe do lado de fora parasse de me encarar pela janela do meu armário, precisava ter pego a capa de chuva que ele está usando.

Pra onde eles estão indo e por que não estão dentro da água, como qualquer outro peixe? Minha cabeça estava trabalhando a todo vapor, fazendo surgir a todo momento pensamentos e questionamentos aleatórios sobre onde eu estava, o que me cercava e muito mais! Mal conseguia me concentrar numa única coisa e comecei a acreditar que esse lugar estava me fazendo mal, o suor brotava na minha testa enquanto minha visão ia da estante pra cama e da escrivaninha pra cadeira e da lareira pro fogão, depois pra mesa de centro e como poderia haver tanta coisa no meu quarto?!

Um leve gosto de ferro brotou na minha língua, minhas mãos perderam temperatura e minha visão borrou, a madeira do chão aos meus pés começaram a ceder, caindo uma por uma atrás de mim enquanto eu corria para longe do mesmo destino, e corria, e corria sem fim em direção à porta. Quando percebi o que fazia já saltava do chão ao mar, sem ter planejado a queda, mas que ocorreu mesmo assim.

Fiquei boiando durante um tempo na água morna e com o sol no rosto, analisando a casa que estava atrás de mim, totalmente completa, erguida no ar a muitos metros de onde eu estava, por grossas raízes retorcidas que brotavam do oceano, sustentando-a. Durante o tempo em que olhava para cima, um ponto escuro surgiu no céu e foi aumentando de tamanho conforme se aproximava, até que aterrissou ao meu lado e emergiu. Era meu gato Guffy! E estava indignado comigo por tê-lo esquecido lá em cima, desafortunada criaturinha.

Um bote surgiu numa distância à frente e vinha na minha direção, então comecei a sinalizar com a lanterna enquanto gritava e acenava. “Estou aqui!”. Ele chegou próximo, mas estava a alguns metros flutuando no ar, então jogou uma escada que comecei a subir, tendo meu gato em mãos.

— Bom dia senhor, espero que não seja alérgico a gatos.  Poderia me informar onde estamos?

— Senhor não! Senhorita! E sente-se logo pra podermos seguir! Estou te esperando aqui a horas!

— Perdão, não sabia que eu vinha, senhorita — ela era tão bela, como não havia reparado antes?
Me acomodei com Guffy no colo na poltrona atrás dela, enquanto ela remava a água energicamente, como se não conseguisse esperar até finalmente chegar. Mas chegar a onde?
— Com licença, mas como parei aqui? — Estranhamente, meu banheiro já era uma visão muito distante.
— É isso que acontece quando não se presta atenção na realidade, jovenzinho  Uma distraçãozinha, esquece-se o que ia fazer, se perde em pensamentos e puf! Cai aqui —  ela dizia enquanto ria, forçando as rugas dos olhos e todas as outras que agora estavam espalhadas por seu rosto.
— Então tudo isso é real, senhora? Achei que era apenas um sonho.
— Nada disso… Até mesmo nossos sonhos são reais enquanto estamos neles, só descobrimos que estávamos dormindo quando acordamos. Realidade é tudo aquilo que está a sua volta; eu, esse bote, seu gato, a poltrona de veludo que está sentado, os peixes que estão voando ao nosso lado, tudo que está vendo, acreditando e sentindo; mas se não acreditamos que é real, nada fará com que isso mude, nem mesmo se bater na nossa cara. Te mostrarei como é!

Pisquei e me vi submerso, sem saber onde estava a superfície. Engasguei com a água que entrava em meus pulmões e me debatia desesperado, enquanto um cardume de aves multi-coloridas que ali nadavam começaram a se juntar ao meu redor com certo interesse, e um enorme tigre abria caminho pela água com suas patas em direção às pobres coitadas, devorando-nas; pisquei e estava de novo sentado na poltrona, recebendo o calor do sol sobre nós, completamente seco e com oxigênio à vontade, mas meu gato havia sumido. O jovem garoto que remava o barco continuou:

— Já temos uma vida curta, então se formos querer decidir tudo que é real ou não, morreríamos ainda sem saber. O segredo é vivermos o que nos é dado,  namoro uma sereia que jamais disse palavra alguma, mas com ela tenho as mais reais conversas!

— E como faço pra voltar? Não posso esquecer de colocar comida pro meu bichano.

— Não se preocupe, meu bom homem! — disse o cavalheiro de voz grave com um largo sorriso no rosto — todos voltam alguma hora, mas antes precisa sentir o que de melhor este lugar tem a oferecer!

Passei o resto do tempo quieto, lutando contra minhas próprias ideias de realidade; já não sabia se antes era mais real que o agora ou vice-versa, por um momento acreditei que antes era o sonho ao qual me referia e agora estava acordado dele, ou se ambos eram tão reais quanto possível em cada um, mas não consegui chegar a lugar algum em meus pensamentos e só me perdia cada vez mais.
Enquanto remava, ele começou a apontar e descrever diversas espécies de peixes que passavam por nós, alguns que nunca tinha visto na vida, mas fingi estar dormindo; não estava mais pro clima de conversa e não parava de vir na minha cabeça imagens de avestruzes usando chapéu. Como faziam para vestirem-se?

— É aqui onde deixo você, menino — o velho disse enquanto tossia — agora siga caminho sozinho. Obrigado pela conversa, mas cuidado com as laranjas! Não se esqueça, o que é mais real é o que permitimos ser.

Estávamos navegando por tão poucos minutos que isso me pegou de surpresa, nem tinha percebido o quanto nos movemos até que a viagem terminasse, muito menos havia avistado o cais que estava a nossa frente até que ele surgisse como num passe de mágica. Desci num salto e comecei a andar, mas percebi o que estava fazendo então olhei pra trás.

— Mas e agora, pra onde vou? Posso acabar ficando perdido por esse bosque!

— Mas já não estamos todos? — Ele refletiu para si mesmo e saiu remando, enquanto ia envelhecendo até ir perdendo a carne que preenchia suas roupas e até que seu esqueleto desmantelou-se, então o barco seguiu sozinho.

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