Um sonho para se contar

           Hoje acordei com um dos inúmeros sonhos que tive durante madrugada em mente,  e decidi contá-lo detalhadamente, seguindo apenas o que senti e vi nele.


Me encontrava em uma Universidade renomada, daquelas com uniformes completos, que obrigam os meninos a usarem gravata e as meninas saia e lenço no pescoço. Estava completamente careca, com um quê de delinquência, e o Diretor, acompanhado de repórteres, estava realizando a gravação a respeito de um trabalho que uma colega e eu fizemos juntos. O campus era enorme, com jardins e caminhos pavimentados dignos de um parque magnífico.
O sonho se iniciou em uma tarde amena, estávamos em baixo de cerejeiras muito bem florescidas e que já deixavam suas flores caírem, o que dava um ótimo cenário de fundo para a reportagem. A universidade era um castelo enorme merecedor de aparecer em filmes, construído a partir da arquitetura gótica, com pedras cinza-escuras e recheada de imponentes torres, que subiam e rasgavam os céus.

Na primeira gravação fiquei de lado, enquanto filmavam o que minha amiga dizia, esperando a vez que me chamariam para saber o que tinha a contar também. Terminaram a dela e começaram a recolher as câmeras e se prepararem para irem embora. Fiquei aborrecido, olhei para o Diretor, confuso, e perguntei “Não apareço? Tenho coisas para falar, também. Fizemos o trabalho juntos!”.
“Ok, vamos regravar. Enquanto ela fala, você fica atrás dela segurando essa placa, e na sua vez ela segura a placa e você tem o direito de falar sobre o trabalho”, ele disse, como se a ideia nem tivesse passado pela cabeça dele antes de eu ter comentado.
Segue como combinado, a menina  volta a falar desde o início, termina e o Diretor para em frente as câmeras e comunica, com um sorriso no rosto “E nosso outro aluno, que também fez parte do trabalho, não aparecerá porque tirou zero, infelizmente”. Fico indignado, sem nem conseguir entender ou falar algo, revoltado e enfurecido.

Saímos dos jardins de cerejeiras, e enquanto estamos andando no pavimento até o castelo, pergunto “Como assim zero, o que houve? Por que minha nota foi anulada?”. Queria saber o motivo, mas já estava no limite. “Foi uma piada, não se preocupe” o Diretor responde, com o mesmo sorriso zombeteiro de antes.
Não aguento tanto desdém, explodo em fúria e berro “Mas que merda, como assim uma piada? Vai se foder, seu velho desgraçado, que atitude digna de um grandíssimo filho da puta!”.

A cada xingamento sua irritação aumenta e uma veia na testa pulsa, sua face fica completamente vermelha e ele me dá um tapa na cara. A cena para, congela da mesma forma que ocorre quando se toma uma bofetada na vida real. A expressão dele muda para uma vitoriosa, mas ainda irritada. A câmera do sonho gira, mostrando uma face minha, limpa, tendo como fundo as cerejeiras e suas flores que caem, e depois a outra, vermelha e com a marca de cada um dos dedos do Diretor, com o fundo da estrutura imponente que é a universidade.
“Você não acha melhor tomar cuidado com as suas costas, rapazinho?”.

O ódio toma conta de mim, fuzilo os olhos do Diretor, chegando com minha face na dele perto o suficiente para que ele sinta o calor da minha respiração, e berro “Vá pra puta que te pariu, seu velho miserável! Você é louco de fazer uma coisa dessas, quer que eu te espanque agora mesmo?!”. O diretor, ultrajado e desestabilizado com cada palavra dita, proclama autoritariamente “Cuidado com a sua boca, moleque! Vou denunciá-lo por agressão verbal à polícia e estou agora mesmo providenciando sua expulsão, que finalmente chegou”.

Ainda bufando e berrando a um palmo de distância de seu rosto, sigo “Expulso? Posso te denunciar por agressão física, seu merda! Posso mandá-los prenderem-no e acabar com o restante da sua miserável vida!” e depois continuo, calmamente “Mas não, ao invés disso, vou transformar sua vida em um dos piores infernos que o homem já teve coragem de imaginar, a ponto de desejar nunca nem ter nascido. E quando sua sanidade acabar, vou torturá-lo para que sinta dores inimagináveis, enquanto sua loucura tenta decifrar o que está acontecendo…”
Enquanto falava e pronunciava todas essas ameaças, o clima mudava. As flores de cerejeira pararam de cair, como se o tempo tivesse prendido a respiração para ouvir o que eu tinha a dizer. A noite escura e fria de repente tomou o lugar do tranquilo clima que antes estávamos e, se você olhasse profundamente em meus olhos, era possível observar de trás de minhas pupilas o fogo do verdadeiro inferno, que era a visão que o Diretor estava tendo.

Ele estava completamente congelado, e num baque, voltou à realidade. Assusta-se com o choque e sai correndo pelo restante do caminho pavimentado até os portões da universidade. Ando calmamente atrás, como se a cada passo meu fosse mais do que o suficiente para alcança-lo, mesmo que ele mantivesse o ritmo desesperado que estava. Sigo berrando e urrando xingamentos, ameaças e digo “Por que você não se mata logo, seu velho pervertido?!”.
Ele finalmente alcança o portão e empurra as portas de aço, que estão mais pesadas do que nunca, para entrar na recepção da universidade e refugiar-se do que o segue. Tenta fecha-las para que eu não entre, falhando miseravelmente. Empurro as portas, batucando com as duas mãos enquanto passo por elas, com um sorriso malicioso no rosto, produzindo um som diabólico e gutural enquanto profiro mais e mais ameças.

O cômodo é extremamente sombrio mas bem iluminado, feito de tijolos cinza-escuros do chão ao teto, tendo duas portas que estão fechadas no lado direito, uma escada enorme  que sobe ao lado esquerdo, da mesma tonalidade que o restante da sala, um bebedor puído e Peter, o zelador da universidade, sentado numa cadeira simples e com encosto, perplexo com o que está acontecendo, mas que não move um músculo.
O Diretor continua correndo, segue em direção à parede da frente, onde entra em um estreito, e sem acabamento, corredor que leva até sua sala.
Aguardo-o voltar parado, de braços cruzados, para que possa ter a oportunidade de destroçar ainda mais sua sanidade, que não aguentaria muito mais.

Ele retorna, segurando em suas mãos, um enorme e negro machado de duas lâminas. Trêmulo, pálido, de olhos vazios e sem foco, acompanhados de uma face aterradoramente acabada, anda lentamente até uma das duas portas à direita, enquanto continuo parado, observando suas ações com um sorriso desafiador.
Ele se dirige ao zelador e diz, com uma voz monotônica “Peter, pode me recordar, por favor, quem manda nessa universidade?”
O sempre gentil, e agora confuso, Peter, sem saber o que está acontecendo, pego de surpresa pela pergunta, responde, meio incerto: “Você, senhor?”

“Obrigado”, agradece o Diretor.

Ele abre a porta em que estava de frente, e na sala que se mostra não existe chão, não existe sala, é apenas um grande furo na terra, um abismo, uma sala para o nada e para o vazio, com uma grande queda esperando por aquele que ousasse dar um passo à frente.
O Diretor joga sua arma pra cima, dentro da sala, e se joga, calmamente e com os braços completamente abertos, em baixo da mortífera trajetória do machado.

Peter olha em minha direção, desesperado mas ainda paralisado. Ignoro-o e sigo rumo à esquerda, para subir a escadaria aos andares superiores e chegar em minha sala de aula. No caminho até as escadas um ratinho completamente branco passa por de baixo dos meus pés e, carinhosamente, desvio a trajetória da minha pisada, para que não o acerte.


Meus sonhos são bizarramente interessantes. Já tive, anteriormente, sonhos dignos de livros e filmes, mas esse é o primeiro que chego a realmente escrever, tão detalhadamente, a forma que o sonhei.

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